Gravidez não é doença. Mas basta uma mulher engravidar para que, muitas vezes, seu corpo passe a ser lido como problema em potencial. O que é da ordem da experiência, da travessia e da transformação acaba facilmente capturado pela lógica do controle, da vigilância e da suspeita. A medicina, quando se afasta da escuta e se apoia apenas no protocolo, pode transformar a gestação numa espécie de diagnóstico permanente: consultas que interrogam, exames que angustiam, palavras que fazem do corpo saudável um corpo sob ameaça.
Isso não significa recusar o cuidado, mas questionar o excesso de tutela. Uma gestante de risco habitual não é, por definição, uma paciente doente. É uma mulher vivendo um processo fisiológico profundo, complexo, exigente, que precisa ser acompanhada com responsabilidade, sim, mas também com escuta, respeito e confiança na inteligência do próprio corpo. Há uma diferença importante entre cuidar e patologizar. E nem sempre o modelo hegemônico sabe sustentá-la.